Evacuados de 8 de fevereiro (Parte-I)
O dia que as sirenes soaram
O som estridente do soar das sirenes da Mineradora Vale, alertando para o rompimento de barragem, causou
pânico em quatro comunidades do município de Barão de Cocais
Por Carlos Leal
DRT/DF 8947
Madrugada
de sexta-feira, 08 de fevereiro por volta de 01:30h, as sirenes da Mineradora
Vale soaram... O “uivou” das sirenes foi ouvido a quilômetros de distância, os
alto-falantes avisando que a barragem da mina de Gongo Soco estava para se
romper, anunciavam: “ATENÇÃO, ATENÇÃO... ISSO É UMA EMERGÊNCIA. ATENÇÃO, ATENÇÃO... ESSA É
UMA SITUAÇÃO REAL DE EMERGÊNCIA DE ROMPIMENTO DE BARRAGEM. ABANDONEM
IMEDIATAMENTE SUAS RESIDÊNCIAS... SIGAM PELA ROTA DE FUGA ATÉ O PONTO DE
ENCONTRO E PERMANEÇAM ATÉ QUE SEJAM REPASSADAS NOVAS INSTRUÇÕES...”
Centenas
de moradores das comunidades de Socorro, Gongo Soco, Tabuleiro e Piteiras,
acordaram aterrorizados pensando que a lama já estava chegando. Pais e mães
carregando seus filhos, idosos sendo ajudados por parentes e amigos, parentes
ligando para parentes, vizinhos acordando vizinhos. “Um horror imensurável.”
Imensurável
também era o medo da morte... as pessoas só pensavam em salvar suas vidas e as
vidas de seus entes queridos. Há quem afirmou, que as únicas coisa que
conseguia lembrar era das tragédias de Brumadinho e Mariana, que por isso,
ninguém quis perder tempo carregando seus pertences, “tudo ficou pra trás”. Tomadas pelo medo da morte, algumas pessoas
nem fecharam suas casas. Todos correram para as partes mais altas de suas
comunidades deixando para trás, histórias de vida construídas durante anos. Logo,
os ônibus da Mineradora Vale chegaram e todos foram evacuados, sendo acomodados
num ginásio de esportes em Barão de Cocais (sede do município).
Comerciantes
abandonaram suas mercadorias, produtores rurais deixaram para trás suas
colheitas, trabalhadores manuais/artesãos abriram mão de suas obras, pedreiros
e pequenos empreiteiros pararam suas empreitadas, trabalhadores diaristas ficaram
sem ter o que fazer... as amizades e convívio com parentes, amigos e vizinhos
se dispersaram, e as crianças tiveram a infância interrompida por tempo
indeterminado. “Tudo ficou para trás!... Só levamos nossas vidas e a roupa do
corpo, até nossos caros por lá ficaram”, disse uma moradora evacuada.
“Nem
mesmo os animais de estimação tivemos como trazer, ficaram todos para trás!” Também
ficaram as criações como equinos, bovinos, caprinos, suínos, aves, peixes e
abelhas que criamos para nossa subsistência e como atividade econômica, lá
ficaram à mercê dos predadores silvestres e até mesmo de ladrões, porque não
têm seguranças em número suficiente para cobrir toda área evacuada”, afirmou um
apicultor rural...
“Por
obra de Deus e proteção de Nossa Senhora Mãe Augusta do Socorro, ninguém morreu
na lama da Vale, mas já tiramos um parente, amigo e vinho morto de dentro de um
hotel”, disse uma líder comunitária.
Entre
as maiores reclamações por parte dos evacuados, é a falta de informação. São
reuniões e mais reuniões feitas com representantes da Vale que (nada resolvem),
onde são entregues pautas de demandas, que depois de dias são respondidas com
respostas vagas que nada esclarecem. Com isso, uma comoção pode vir a acontecer...
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